
Parece um Carnaval de cidade do interior. Todo mundo sai fantasiado na rua. A fantasia pode ser uma mascara, um penteado, um colar sobre o pescoço, uns trapos de pano amarrados na cintura, purpurina no rosto e, se não houver dinheiro para nada disso, basta virar a roupa do avesso, fingir que esta anotando num pedaço de papel o numero de pessoas andando pela rua, carregar um telefone antigo e conversar baboseira, inventar o personagem e carrega-lo até o fim. Para se divertir, a gambiarra, o jeitinho e a criatividade dos guineenses não têm limites.

Na segunda-feira, foi o dia do desfile. Grupos de etnias diferentes: balantas, fulas, manjacos, bijagos, papels, felupes e outros vêm até a capital, para mostrar as suas danças, as suas mascaras, o seu jeito de festejar o Carnaval. O desfile é pequeno, as pessoas ficam em volta da praça dos Heróis Nacionais, a maior e mais conhecida da cidade e andam pelo centro, acompanhando os grupos. Vem gente de todos os bairros para assistir e assim se faz a festa.
Há muita gente nas ruas, principalmente crianças. Manga de mininus, como se diz em kriol. Os importadores de apitos de plástico ganham muito dinheiro nessa época do ano. Os mesmos que vendem mascaras e apetrechos na 25 de março em São Paulo enviam para Bissau caixas e caixas de fantasias baratinhas, que se transformam em traje quase obrigatório para os guineenses.
Não há carros alegóricos, mas há enredo: “Combater a droga e emigração clandestina, reafirmação da paz e reconciliação nacional”, como se fosse possivel transmitir mensagem séria durante o Carnaval. Mas quem se importa. Mascaras e esculturas, na maior parte das vezes feitas de papel machê e armação de metal indicam a adaptação dos grupos ao tema, e ha concursos, mas não ha Clovis Bornay.
As danças, eu nem preciso dizer. São mesmo lindas, emocionantes, o batuque e o ritmo dos tambores é muito contagiante. Enquanto fotografava, dancei como pude.
As mulheres que desfilam se besuntam de óleo de palma – o mesmo azeite de dendê, e o efeito sobre a pele negra e o sol do fim da tarde é esplendoroso. Vou tentar deixar a imagem descrever o que eu gostaria de dizer em palavras, mas não posso.

Em um grupo com quem parei para conversar na praça, um rapaz perguntou me se eu achava a festa bonita. Eu respondi que sim e perguntei o que ele estava achando. Ele me disse que gostava de ver a gente da terra dele feliz. E é verdade, a gente fica mesmo feliz, e é bonito de se ver. É a velha receita de rir da própria miséria, da própria desgraça, não tem nada de novo.
Quem ri de si mesmo é mais feliz
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