Essa semana vi uma cena tão incomum por aqui, que achei que a minha memória ja tinha apagado: um homem lavando a rua com mangueira.
Aquele desbunde de água saindo de um cano segurado por um homem, um jato alto com a luz do sol ao fundo para encher de brilho as inúmeras gotas de água que se espalhavam pelo chão de asfalto esburacado.
A minha memória se despertou e ainda foi mais longe, e trouxe uma imagem da minha infância: Na rua do Léo, no Guará, uma mulher sempre lavava a rua com a mangueira. Todo santo dia, quando íamos para a escola, cedinho, lá estava ela. Mesmo em dias de chuva. Tenho registrada a cena vista da janela do carro: a mulher de capa de chuva na rua com a mangueira, chuva caindo céu, agua saindo da mangueira e meu pai chamando a nossa atenção para aquela cena.
Lavar a rua com mangueira aqui é ainda mais insólito para mim. Insólito porque em uma cidade onde falta água pra todo mundo e o tempo todo. Porque na minha casa nunca vi sair água da torneira.
Insólito porque antes disso havia acabado de presenciar a fila de mulheres e meninas na porta de uma casa onde água nunca falta – lugar onde eu mesma vou buscar água, aliás.
Insólito porque esbanjavam água enquanto meninas de 5 anos saem dessa casa carregando na cabeça um balde que eu mal consego levar com a mão.
Insólito é o mundo.
31/01/2008
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