31/01/2008

Presente de grego

Essa semana recebi os meus primeiros hospedes pelo Hospitality Club aqui em Bissau. (se você não sabe o que é isso: http://www.hospitalityclub.org/). Sou a única pessoa inscrita que oferece acomodação em Guiné Bissau pelo site e esses já são o terceiro grupo de viajantes que me procura.

Dois mochileiros: o Miguel, espanhol e o Padélis, grego, vindos do Senegal para visitar as ilhas Bijagos, na Guiné Bissau. O Miguel, recém formado em Direito, estava passando temporada em Dakar com a namorada e depois seguia em direção ao Mali. Ele já morou um ano no Brasil.

Padélis, estudava e vivia na Alemanha, e saiu de la viajando, há um mês sem destino fixo, rumo ao desconhecido no continente africano. Chegou até a Guiné Bissau. Daqui ele vai tentar ir até Bamako, no Mali, para buscar aviões mais baratos até Paris, onde estuda Economia.

Encontraram-se no meio da estrada. Viram meu profile, me ligaram e pediram asilo. Chegaram de súbito, numa sexta-feira à tardinha, arranjei 2 colchões, empurrei os moveis da sala e enchi os tonéis de água para todo mundo poder tomar banho, pedi ao segurança para buscar pão e preparei café da manhã. Eles pegaram o barco para as ilhas logo cedo e so voltei a ver um deles, o Padelis, que havia deixado mochila lá em casa.

O bom de receber gente que vem de fora é que a gente começa a enxergar as nossas próprias vidas com uma perspectiva diferente. Depois de alguns dias na ilha, uma viagem de barquinho em alto mar que durou 15 horas e de passar nas tabancas quase sem infra-estrutura nas ilhas, o Padelis disse que minha casa parecia palácio, de tanto conforto. E que Bissau tinha cara de Nova York depois de tudo o que ele viu nas ilhas.

Ontem jantei com o Padelis. Que menino mais interessante! Tem 24 anos e saiu pelo mundo para encontrar na vida real o que estuda nos livros na universidade. Muito corajoso, sair pela África sozinho, com duas mochilas, quase 20 quilos nas costas. Ousou sair da sua bolha para entender a dinâmica socioeconômica de alguns paises e povos africanos. A visão ainda deve ser superficial, pois a viagem de pular de galho em galho não permite aprofundar muita coisa, mas so de sair do seu mundinho confortável na Europa, acho que o menino já aprendeu muito.

Falou-me de um grupo de refugiados da Serra Leoa que habita a ilha de Caravelas, formou uma comunidade com regras próprias, falou-me das ruínas em Bolama, a antiga capital da Guiné Bissau que hoje esta quase abandonada, falou-me que a globalização chegou até os confins das ilhas, onde as pessoas usam saias e roupas tradicionais misturadas com camisetas de times de futebol europeu (e eu lembrei daquelas imagens de índios brasileiros com cocar e short Adidas), falou-me da viagem de piroga (um barquinho quase canoa), à noite, em alto mar, com gente até as tampas, galinha, porco, mala e sacola, para voltar a Bissau e chegar no porto às 4 da manhã e dormir ali mesmo, para não enfrentar o escuro da cidade.

Deu vontade de embarcar nessa viagem com ele embora eu saiba que teria medo de entrar em um barquinho desses, sem a menor infra-estrutura e segurança. Mas valeu a pena pelo menos ouvir suas historias e visões de mundo. O menino é muito culto, explicou-me teorias da economia que fazem muito parte do meu cotidiano agora, mas que eu não teria capacidade de entender ou saco para ler em um livro.

E claro, encheu-me também de vontade de conhecer a Grécia e sobretudo a ilha de onde vem e onde já me convidou para passar um verão. Chique é ter hospedagem grátis nas ilhas gregas (e chegar la de barco!). Aprendi também – não sabia – que na Grécia também tem Carnaval e que cada ilha festeja de uma maneira diferente.

Padelis também deixou como herança uma grande coleção de musicas e alguns filmes ou documentários que carrega nos seus discos rígidos portáteis e que passei para o meu computador. Jazz, musica grega, francesa, malinense, árabe, e até brasileira. Coisa que eu adoro ouvir, mas que não havia trazido pra ca e alguns filmes para assistir de vez em quando no computador. Isso tudo e mais um canivete suiço que encontrou no Senegal. E o principal: as impressões de uma viagem que acabei fazendo junto com ele.

Dei-me conta também de que o Hospitality Club é uma forma de voluntariado. E coisa que eu adoro: acolher as pessoas e encontrar gente muito diferente de mim, ou quiçá muito parecidas, com boas historias para contar.

2 comentários:

Anônimo disse...

O indiscreto:
E aí, eles eram bonitinhos?
Saudades, Flavinha.
O Carnaval tá uma loucura aqui no Rio.
Beijo enorme!
André.

Helena Mader disse...

Que história incrível! Tirou foto do grego? Fiquei super curiosa para ver como é essa figura tão interessante!!!
Beijos e muita saudade
Helena