O “oito de março” para mim começou no dia 07, sexta-feira. Fui a uma sessão especial no Parlamento da Guiné Bissau presidida por deputadas mulheres. São 15 num universo de 100 parlamentares. Entres os homens, ha muitos que são tradicionalistas. Fiquei impressionada como não levaram a sério a sessão, fizeram chacota dos discursos das deputadas, tremenda falta de respeito. Mas como as próprias deputadas me confessaram, conseguir esse espaço já foi uma conquista.
O tema em debate era muito sensível. A mutilação genital feminina. Existe um projeto de lei para votação que proíbe essa pratica muito comum em varias etnias da Guiné Bissau. Durante o fanado (cerimônia tradicional pela qual passam meninos e meninas de diversas etnias), meninas ficam durante algumas semanas ou meses em uma barraca com outras centenas de meninas, longe de suas famílias, aprendem rituais e tradições das etnias e têm, muitas vezes, os seus clitóris excisados.Uma médica explicou, durante a sessão, os tipos de mutilação e as conseqüências da excisão para a saúde das meninas. Pela primeira vez senti dor no clitóris. E é difícil admitir e falar nesse órgão. Mesmo com toda a abertura para a sexualidade que faz parte da minha educação, tocar nesse ponto ainda é um tabu muito grande. Até pensar sobre isso acho que é tabu. Imaginem abordar esse tema aqui no parlamento.
Teve gente que saiu durante a sessão. E não porque estavam sentindo dor como eu, mas porque se incomodavam com uma ilustração do órgão sexual feminino sendo exibido na tela de projeção. A maioria, homens. Incomodavam-se com o tema, pois acreditam que essa pratica é correta. E como convence-los do contrario? Há mitos espalhados sobre a existência do clitóris impedir a realização de um bom parto, de ter conseqüências sobre a fidelidade da mulher no relacionamento e todo o tipo de crença que que são tidas como verdades para muitas pessoas. Homens e mulheres acreditam nisso. So um pouco dificil aceitar que pessoas instruidas, deputados - nem todos no parlamento o são instruidos, mas... - também façam vista grossa para os riscos dessa tradição.
Quem acredita na excisão são sobretudo as famílias de pouco acesso à educação e à informação que enviam suas meninas para os fanados com esforço e com o sentimento de honra às tradições. Enquanto isso, há gente que ganha dinheiro com as barracas e fanatecas.
E esse é ano de eleições. Os deputados evitam falar sobre o tema antes de votar. Ha muito debate e muita controvérsia. E claro que a aprovação da lei é apenas parte do caminho a ser traçado até que seja possivel proteger as meninas dos riscos e horrores da mutilação.
O tema é muito sensível, e a sensibilização sobre ele, mais ainda. é cultural, é delicado; Envolve crenças culturais e por vezes religiosa. Não pode qualquer pessoa chegar e dizer ‘isso esta errado’, muito menos um branco. Não resolve. E estão certos, o debate tem que ser interno, a sensibilização tem que vir de dentro das proprias comunidades.
Poucas mulheres tem a coragem de testemunhar que passaram por essa situação e expor a sua intimidade e uma das poucas deputadas forte e corajosa que ousa fazê-lo sofre enormes pressões políticas dentro da Assembléia. A ela e a todas as mulheres que foram vitimas dessa brutalidade (estima-se 140 milhões todo ano) e às meninas que têm a boca amarrada, as pernas seguradas e o clitóris arrancado de seus corpos durante a infância (são cerca de 3 milhões todos os anos), eu dedico o Dia Internacional da Mulher.
Aos homens eu sugiro uma reflexão. Analogamente, pelo que entendi da explicação médica, arrancar o clitóris de uma mulher é como se tomassem o seu pênis, arrancassem não a pele que circunda a ponta como na circuncisão, mas a ponta inteira, e deixassem o resto do órgão la. Essa foi a dor que eu imaginei e senti quando ouvi a médica falar sobre isso. Imaginem as conseqüências disso para a sua vida sexual, para a sua saúde mental e física para o resto da vida.
A sessão parlamentar acabou com musica. Aquela cantora sobre a qual ja falei em outras ocasiões, a Dulce Neves fez uma participação especial, varias mulheres que estavam no plenário vieram e dançaram com ela e a cerimônia foi muito bonita e emocionante.
Mas as emoções não acabam por ai.
Parto dolorido
Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, entrei pela primeira vez na minha vida numa sala de parto. Dessa vez ainda não foi para parir. Eu acompanhava um grupo de funcionários do PNUD que resolveu fazer doações para as mães na maternidade do Hospital Simão Mendes, o único hospital de Bissau.
Eu não tenho muitas experiências de visita a hospital publico no Brasil para comparar – nem é esse o objectivo - e sei que os relatos não são dos melhores. Posso assegurar-lhes que as cenas que vi no hospital daqui não foram as mais bonitas da minha vida. Mulheres em situação difícil, com a criança no ventre ou no colo ao lado, numa cama de hospital, numa esteira no chão, onde houver espaço. Carência de afeto, de cuidado, de higiene. Mas ainda assim, havia uma certa organização. Eu confesso que imaginava algo bem pior.
Os profissionais de saúde trabalham em condições tão difíceis que o tratamento das mulheres ali dentro é como se parissem em uma linha industrial. Parecia algo mecânico: Pariu, sai. Próxima! Às vezes o numero de partos diários chega a 30.
Consegui fazer a minha primeira entrevista em crioulo, com uma jovem de 23 anos que teve o primeiro filho e so conseguiu o parto porque as pessoas que fizeram a doação, quando chegaram, ajudaram-na a comprar os medicamentos para fazer a cesariana. Ela poderia ter morrido, o bebê também. O hospital não consegue atender a todas as demandas porque não há recursos nem medicamentos suficientes.
A doação foi so um simbolo, uma caridade, em meio às historias e desgraças de tanta gente que chega la e acabam morrendo por falta de recursos, de uma solução simples, um medicamento, algo que para elas é inacessivel.
Para as mulheres que têm de botar seus filhos nesse mundo tão inospito de direitos, de afeto, de oportunidades, eu dedico o Dia Internacional da Mulher. As (com crase) que com ou sem anestesia aguentam a dor do parto e a dor da existência. E também aquelas (com crase) que perdem seus filhos, antes que possam dar-lhes o direito de existir sem dor.
Não é porque somos mais frageis que merecemos um dia especial dedicado a nos. Isso é uma baboseira. Mas esse dia ainda serve sim para lembrar dessas mulheres todas - e são tantas - que vivem em um mundo horrivel, dificil, sem motivos para sorrir.
Serve para lembrar que ainda sofrem por causa de um sistema que sempre deu privilegios aos homens e as fez trabalhar, carregar os filhos nas costas, o balde d'agua na cabeça e ainda mantê-las caladas na organização da sociedade e ainda acha conveniente dar-lhes umas bordoadas, tapas, socos ou pontapés quando ousam levantar a sua voz. P
ara as mulheres que sofrem violências, fisicas e psicologicas, eu dedico o Dia Internacional das Mulheres.
Isso esta parecendo um pouco biblico ou uma missa, quando se repete a mesma frase varias vezes, hosana nas alturas. Então vamos la para a ultima parte desse Dia Internacional da Mulher.
No sabado de manhã, visitei o Cinturão Verde de Bissau, um campo agricola, bem no meio da cidade onde milhares de mulheres trabalham na cuidando da terra, semeando, plantando e colhendo, fazendo tudo com as mãos. Um grande centro de produção orgânica, mas não por convicção ecologica, so mesmo porque não ha outras condições de plantação mecânica.
São elas que cuidam, vendem os produtos e usam o dinheiro para sustentar suas familias. Continuam carregando o peso nas costas e na cabeça, até uma idade em que ja não se devia trabalhar. Ha muitas mulheres velhinhas, todas elas - jovens ou velhas - com seus vestidos coloridos - que se chama spera - regando, cultivando, afofando a terra, colhendo e tentando sobreviver.

Fizemos uma visita ao campo e depois houve uma cerimonia solene que os pouparei de ler a descrição. Algo que não fazia nenhum sentido. Obviamente, os politicos da cerimônia sairam na hora em que as coisas iam ser distribuidos. Não queriam ver a fila e a desorganização que as mulheres fariam para receber os instrumentos. Certamente haveria brigas e injustiças. As proprias mulheres sabem que são usadas para aparecer na televisão, sorrir e depois são novamente abandonadas à propria sorte. Fiquei mais um pouco, fotografei, e sai de la caminhando, de fininho e calada, voltando pra casa debaixo de sol forte, suando muito e pensando sobre tudo isso.
E a mulher autônoma?
E so faltou falar da mulher que so vive para o trabalho e que mesmo aos domingos - porque não tem companhia em casa, de amigos ou em nenhum lugar - que vai ao escritorio, que tenta se solidarizar com as outras mulheres e que no fundo é uma mulher sozinha e não consegue obter a solidariedade de ninguém, porque é agressiva, é amarga. Não soube aproveitar a autonomia feminina pela qual tanto luta e da qual tantas mulheres precisam. Transformou a autonomia em solidão, vive para o trabalho, esqueceu de tornar-se mulher.
Não falo de mim, falo daquela que convocou comigo uma reunião para o fim de semana e que completou o meu ciclo de reflexão sobre esse dia internacional, com profunda tristeza e até um pouco de raiva, afinal de contas tive que trabalhar em horario indevido. Não soube dizer não, mas juro que é a ultima vez, nesse caso.
A essas mulheres eu também dedico o Dia Internacional da Mulher. Para nos mulheres, ser fragil e ser forte ao mesmo tempo é o nosso maior bem.
Poder aguentar os trancos e também pedir colo quando é preciso.
Liderar e também ser conduzida quando é devido.
Comer e ser comida, com ou sem gemido.
Enlouquecer, botar a culpa nos hormonios e fazer sentido.
Feliz Dia Internacional da Mulher (atrasado - ou não, porque ainda defendo que todo dia é dia da mulher, ou pelo menos deve ser festejado por isso).
PS: As respostas aos pedidos respondo depois, promessa feita.
Tentarei colocar também algumas fotos de Brasilia, de Cabo Verde, e desse passeio a pé em Bissau, no dia 8 de março.

4 comentários:
Fiquei emocionada e me senti homenageada por voce com este texto tão forte e cheio de presença de vida. Talvez seja quase imperceptível, mas uma teia so começa a ser tecida com o primeiro fiozinho; acho que é isso que voce está fazendo: tecendo uma teia de afetividade e esperança com seus relatos tão bonitos. Obrigada e feliz dia da mulher! beijos, Cris
Minha filósofa preferida, minha poeta preferida, minha observadora preferida, minha mulher preferida... saudades enormes de você!
Parabéns pelo seu dia e pelos textos cada vez mais profundos e oportunos.
minha linda,
emoção sempre há quando leio seus textos (aliás, bem antes que todos, na época ainda redações de uma menininha!), mas esse relato é mesmo muito forte...
e, como mulher que já passou por uma sala de parto de um hospital público(um modelo no DF) para que essa menina linda viesse ao mundo, digo que não é fácil, mas pode ser vibrante, foi uma dos momentos mais incríveis da minha vida!
E hoje, com o orgulho que sinto de você, mais uma vez reafirmo VALEU A PRNA! Grande beijo, e sucesso nessa sua delicada jornada! Feliz dia Internacional da Mulher, e os dias subsequentes também!!!!
Faço aqui uma homenagem complementar à mulher que deicidiu abdicar do conforto de uma vida cartesiana e plano-pilotense para se arvorar pelo mundo, conhecer gentes novas e problemas antigos, que tem o olhar sempre voltado ao próximo e mais: sempre um sorriso próximo voltado a quem tanto necessita. Faço uma homenagem a essa mulher que contribui em dar sentido à minha existência e, certamente, à existência de tanta gente que enxerga, nas suas palavras, uma nova forma de perceber as coisas. Flavínea, parabéns!
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