Passei um fim de semana incrivel num lugar chamado Varela, uma cidadezinha no norte da Guiné Bissau. Tentei atravessar a fronteira e ir até o Senegal de novo, com amigos, mas sem o visto não me deixaram passar.
Os europeus seguiram viagem. Eu, Douglas e Giovana voltamos.Barrados no Senegal.
Na fronteira, para voltar, entramos num caro muiiiiiiito velho. Fizemos um percurso de 50 km à noite em um carro que eu nunca poderia imaginar que fosse capaz de chegar sequer até a esquina. A viagem foi longa, cansativa, sacolejante e de engolir poeira. Como uma viagem rumo ao fim do mundo, no escuro. O mato entrava no carro, que parece um mini pau-de-arara.
Chegamos arrasados e cheios de poeira e por sorte encontramos lugar nesse hotelzinho (Chez Helene) de uma guineense casada com um italiano. Ele faz a propria pasta (massa) e cozinha deliciosamente bem, assa as pizzas em um forno a lenha. Uma maravilha.
Ir até o 'fim do mundo' vale a pena. Varela é a sucursal do paraiso, um lugar muito lindo, uma praia fantastica, mas o lugar esta abandonado. E o fim do mundo vale a pena por causa dessa pousada que existe la.
Fui à praia onde ha vaquinhas e também as ruinas de casas abandonadas e de um complexo hoteleiro que nunca chegou a ser terminado. Paisagens inospitas, inacreditaveis. Muito triste ver a situação total de abandono desse pais! Um investimento que foi pelo ralo e que certamente custou muito a muitos guineenses, inclusive os que vivem ali e nunca terão direito ao conforto e ao desenvolvimento que o turismo quiça os trouxesse. Quiça.
Até chegar na praia, ha um caminho de mais ou menos um quilometro no meio da tabanca (aldeia), onde a gente vai cumprimentando todas as pessoas. Bom Dhia, Salamaleikum. Maleikum Salam.
A maior parte da gente que mora ali é mandinga, muçulmanos convictos, mandam suas crianças para as escolas corânicas e alguns seguem a tradição de mutilar as meninas. A dona do hotel briga muito com a gente de la, ja recebeu ameaça de morte por causa disso. Ali, ha que se encontrar um meio termo.
As gentes da cidade (felupes, mandingas, senegaleses, guineenses, cristãos, muçulmanos ou seja o que for) também são muito queridas, todos muito sorridentes, vendo os brancos estranhos passarem para ir à praia com suas sacolinhas e câmeras automaticas. Eles mesmo quase não vão à praia, so as vacas.
Ha poucas casinhas, no estilo tabanca, e algumas vendinhas (de secos e molhados). Apesar de longe de tudo, em Varela chegam camisetas falsificadas dos times de futebol e também toalhas da Hello Kitty.
Dancei com as meninas que moram na pousada e suas amiguinhas. Me ensinaram as brincadeiras delas, em crioulo. Pelo pouco que consegui entender das letras das musicas, percebi que as meninas do interior da Guiné Bissau são tão erotizadas quanto a geração Carla Perez e 'funk do créu' no Brasil.
Passeei junto com um guineense que estava la trabalhando, construindo casas e nos deu "boleia" de volta. Também foi meu guia em Varela, me contou todas as historias das casas abandonadas, dos hoteis, dos lugares que hoje estão ocupados por militares ou que viram acampamento de turistas guineenses nos feriadões.
Na volta, foram outros 50 km de poeira e montanha russa, e mais algumas horas na estrada. Atravessar de novo o na balsa e voltar para Bissau.
Foi muito bom o fim de semana, mas eu fiquei um bocado triste em ver tanta miseria no meio do caminho. Nesse lugar que passamos, se alguém quiser ir ao posto de saude tem que caminhar os tais 50 km debaixo de sol, ou no escuro da noite. O numero de pessoas que pede boleia é maior do que o que um carro pode comportar.
Eu ando sofrendo um bocado e tendo uns sonhos tristes dos quais nem sequer me lembro, mas que me fazem acordar com um sentimento melancolico sem saber porque. Não tenho demonstrado muito a tristeza no dia-a-dia e nem sei até que ponto ela é real, mas ao mesmo tempo o meu inconsciente esta registrando toda ela e descarregando nos sonhos... essa é a minha teoria.
Esta sendo cada vez dificil - e também necessario, paradoxalmente - voltar para o meu pequeno pedacinho de luxo em Bissau. Ao mesmo tempo, o peso de ser parte do grupo dos privilegiados do mundo esta sendo cada vez mais dificil de carregar. Porque eu sofro em ver, mas sem saber na pele o tamanho do sofrimento pelo qual os outros passam.
Falando em pele, cansei de ser branca. Na praia, me lambuzei de areia preta, passei no corpo inteiro. Sera que é possivel mudar de cor? Não quero mudar a cor da minha pele não, mas também canso um pouco de sentir as implicações que ter uma cor da pele pode ter.
Imagino o que diria uma mulher guineense ao explicar que "cansei de ser preta".
"Cansei de buscar agua no poço, carregar o balde na cabeça e caminhar longe até chegar em casa. Cansei de carregar o primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto filho amarrado nas costas enquanto trabalho sem parar. E quando um deles esta doente, ter que caminhar mais de 30 km para chegar a um posto de saude onde sequer saberei se vou ser atendida. Ter de deixar as outras crianças em casa, e ver meu filho doente morrer no meio do caminho, grudado às minhas costas, sem mesmo ter forças para chorar com a dor da desnutrição."
Se alguém me disser isso sou capaz de morrer de vergonha de dizer que "cansei de ser branca." Que embaraçoso reclamar porque enxergo até onde vai a degradação humana pela janela do carro com ar condicionado. Carro que me separa do mundo e que sequer me da a oportunidade de dar boleia (ou carona) a toda a gente que precisa, inclusive para essa mulher que precisa chegar em algum lugar para garantir a vida do filho.
E sera preciso chegar ao ponto de alguém me dizer isso para eu morrer de vergonha? Não preciso, vivo dizendo a mim mesma. Esses dois lados da mesma historia não me saem da cabeça e andam me deixando um pouco confusa. Vou ter que encontrar um jeito de trabalhar essas diferenças todas e esses paradoxos para conseguir me sustentar aqui até o fim dessa jornada.
Sentir-se impotente diante de tanto sofrimento e degradação humana é um dos piores sentimentos desse mundo, porque da a impressão de ser negligente ou insensivel. O que não é verdade, eu acho.
Se alguém tem uma sugestão para enfrentar isso tudo, eu aceito.
17/03/2008
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2 comentários:
E será que precisa mesmo ficar aí passando todos esses conflitos?
No momento não estou muito altruísta pra te sugerir alguma alternativa...on verra! Boa sorte e muito cuidado!Bisous
Uma sugestão para enfrentar isso: é só pensar que você é uma em um milhão a deixar a sua vida confortável de lado para ajudar a deixar o mundo um pouquinho melhor. Só isso já seria suficiente para você ter o mais tranquilo dos sonos...
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