No primeiro dia em Bissau, explicou-me a portuguesa Ana que amizade aqui é questão de querer, mais do que a convivência. E tem sido mesmo assim.
O pán
No caminho do hotel, Aminata me via passar todo dia. Estava no funeral do cunhado, que mora naquela rua. Já velavam o defunto há uma semana. Sem vacas mortas, dessa vez.
“Gosto muito de você. Quero ser sua amiga. Vou te dar um “pan” de presente”, disse com seu português de sotaque crioulo. Achei engraçado. O fato de me dar um pão vai fazer-nos ficar amigas?
Dois dias depois, eu passava e ela foi lá dentro e voltou com um pedaço de pano, e não um pão. Ahn, um pano…como esses que as mulheres aqui amarram nas pernas para fazer uma saia.
Não era um desses lindos panos africanos, multicoloridos e estampados. Era uma canga do Bob Marley, com uma folha de maconha enorme e os dizeres “Catch Fire”. Não é um lindo pano, mas bonito foi o gesto. Agradeci o presente e fiquei muito contente.
No dia seguinte, passei e entreguei-lhe um dos 500 pares de brincos que havia trazido para mim. Disse-lhe que era um presente do Brasil. E, pronto, assim selamos a amizade.
Aminata não teve uma vida facil. Não conheço tudo sobre a vida dela, mas sei que tem 28 anos e uma filha de 8 anos. “É filha da guerra. Não vive comigo”, me disse. E não falou mais nada. Nem ousei perguntar, por imaginar a dor de uma menina de 20 anos que deu à luz a uma criança durante uma guerra, que ainda deixa marcas de destruição no pais e na vida das pessoas.
A história é triste, me deixou sensível. Mas aí é que vem o golpe.
O golpe
No terceiro dia eu passo, minha nova amiga reclama de dor de cabeça, disse que não tinha remédio, nem dinheiro para comprar remédio. Lamentei, recomendei que descansasse e fui-me embora para o hotel.
No dia seguinte, ela já estava lépida e faceira, sem febre nem dor. E disse, como quem não quer nada: “Gosto muito da sua sandália”. Ah, obrigada. Olhei para os seus pés e ela estava descalça. “Eu não tenho sandálias”, completou, como quem quer tudo.
Se eu tivesse que dar minhas havaianas para cada pessoa que me pedisse aqui ou que me contasse uma historia triste, já estaria andando descalça, ou mesmo sem pernas, tamanha é a miséria e o sofrimento. E me dói dizer isso, quem pensa que não?
Infelizmente não posso salvar o mundo. Se fosse mesmo minha amiga, era bem capaz de dar-lhes os chinelos. Agradar aos amigos e ficar descalça, aliás, são coisas que adoro. Mas aqui não é possível andar descalça na rua. E a menina não é verdadeiramente minha amiga. Ainda não é.
E nem sei se vai ser. Agora passo por aquela rua com menos frequência, mas Aminata volta e meia aparece com uma história de que me comprou mais panos e que vai me levar em um alfaiate para fazer roupas muçulmanas para mim. E sabe-se lá o que ela vai pedir em troca da proxima vez.
Amizade colorida
O preconceito nessa história vem dos dois lados. E, querendo ou não, tem a ver com a cor das nossas peles. Da sua parte, com o fato de achar que uma amiga branca vai trazer-lhes oportunidades e presentes a cada vez. Da minha, com a desconfiança de que não é possível tornar-me amiga de alguém que vai me pedir coisas o tempo todo. Vovo ja dizia: amizade não tem cobrança.
Como é difícil viver em um mundo preto e branco.
E é por isso que estou tentando buscar uma vida colorida. Mais do que os filhos, quero ter amigos de todas as cores. Enquanto isso, sinto saudades dos abraços dos meus amigos de verdade que estão longe.
16/11/2007
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Um comentário:
Linda,. vc deixou uma havaiana rosa (presa no calcanhar) na sua casa...vai fazer sucesso aí, quer que mande????
Bisous
Lilian
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