Mas toca-choro é outra coisa aqui. Coisa que me tirou o sono durante alguns dias. Explico porque:
Morre a mãe do presidente Nino Vieira
Acontece que moro ao lado da casa da mãe do presidente, que morreu há umas 3 semanas. Os velórios aqui duram em media uma semana. Fica um monte de gente reunida na casa, comendo e conversando, 24 horas por dia. Já tinha visto coisa semelhante perto do meu hotel. E como aqui não é difícil encontrar gente desempregada, e as famílias são grandes, a presença nos funerais é garantida.
E, claro, como mãe do presidente, o entra-e-sai de gente foi intenso. Mas isso não é o motivo principal. Depois de enterrarem o corpo, começa o toca-choro. E, segundo as tradições da etnia papel, na qual tem origem a família do presidente, cada membro da família deve matar uma vaca. Não só os membros da família, mas nesse caso também os amigos, conhecidos e ai vai um mundareu de gente que não se pode imaginar.
O que é
O toca-choro dura quase uma semana, com o objetivo de homenagear o espírito de quem morreu. Se o espírito gostar da festa, ele chama outros espíritos e ai a coisa não tem fim. Se o espírito não gostar, ele fica envergonhado e isso é motivo de ma sorte para todos os membros da família.
Claro que a mãe do presidente merecia um toca-choro de me tirar o sono. E pelo jeito o espírito da finada adorou o toca-choro que prepararam para ela.
Batuque que balança
Isso quer dizer que durante uma semana, os batuques não pararam e vararam a madrugada inteira – com o pico da festa geralmente às 6 da manha. Aqui só amanhece às 7. Parecia que eu estava num quarto de hotel no meio do pelourinho, em pleno Carnaval baiano. As vezes parecia que o ensaio da Timbalada era ali embaixo da minha janela. Moro no primeiro andar.
A festa do defunto
Na sexta-feira passada sai do trabalho e passei lá na rua para ver um pouco o tal “Fest-Funeral”. É muito curioso. Pelo tanto de gente na rua, tinha a impressão de estar no Carnaval de Pirenopolis ou de qualquer outra cidade no interior do Brasil. Muita gente na rua, carros e camionetes passando bem cheios de gente na carroceria. Há muita gente mesmo. Como há a matança de animais (só no primeiro dia foram 120 vacas), outras pessoas, curiosos e interesseiros vem porque sabe que vão distribuir carne.
A música é variada. Em determinado trecho havia um cantor e um dançarino, ambos com roupas bastante coloridas, e fazendo um show ao vivo na rua.
O mais legal são só grupos se reúnem, sentados em longos bancos e no meio fio. Eles formam retângulos onde as mulheres ficam sentadas em volta, cantando e batendo tacos de madeira para acompanhar um “mestre da bateria”, que da o ritmo no djembé e outro homem que toca a ‘tina’ (uma cabaça gigante emborcada em uma bacia com agua que produz um som muito grave) e dai, o circulo começa a pegar fogo. De acordo com a música, as mulheres entram na “roda” e se acabam de dançar. E muito lindo.
Dançando sem parar
Há danças que são animadíssimas, em que se pula freneticamente ate suar muito. Em outras, elas só arrastam o pé, mexem os dedos do pé bem devagar e remexem a bunda. Como se fosse um “só no sapatinho” mais lento. Se não existir a expressão “só no chinelinho”, permitam-me inventa-la para que vocês visualizem a cena. As mulheres estavam todas com blusas vermelhas e saias pretas, acho que é a cor oficial dos velórios entre os papel.
Lamaçal de sangue
Em alguma parte da rua, o chão estava todo molhado com uma espécie de lama estranha. Como eu sabia da tradição de matar os animais, fiquei me perguntando se aquilo era sangue. O cheiro de animal na rua era bem forte, mas não dava para ver, porque já estava de noite. Fui para casa não-dormir por causa do barulho.
No dia seguinte passei lá de dia. E minhas suspeitas se confirmaram. Havia uma vaca, toda ensanguentada no chão e dois porcos sendo arrastados para o local, guinchando, ganindo (qual é o barulho que o porco faz?) como se gritassem “não quero morrer! não quero morrer!”. Mas o facao dos sujeitos que matam os bichos era certeiro. Fazem isso no meio da rua (essa rua tem asfalto), para mostrar a todo mundo. Ouvi dizer que é o derramamento de sangue que purifica. E o mais impressionante é que arrancam a pata do bicho enquanto ele ainda está vivo. Então da para ver, ao mesmo tempo, um pedaço de carne como aquele que se compra no açougue e a parte da vaca que se vê na fazenda. Tudo lá, estendido no chão. Da para ver o sangue jorrando pela jugular. Da para ver o bicho se debater ate perder todo o sangue que sai escorrendo na rua.
Na hora em que o animal morre, um homem com uma vara na mão, fica espantando os maus espíritos, batendo a vara contra o ar, no vazio, perseguindo coisas que não conseguimos ver. Outros homens (vestidos com uma roupa meio militar e uma camiseta com a foto da defunta e do presidente) vêm cantando, dando gritos e correndo. Vez ou outra, alguém escorrega no sangue e cai ao lado da vaca morta.
Assim, o toca-choro durou mais ou menos uma semana. Com musica até o raiar do dia, muito batuque, e com a matança de centenas de bichos.
O livro da morte
De tão impressionante que foram as cenas, fizeram-me pensar um monte sobre as minhas aulas de antropologia, as primeiras que tive na universidade. Por que é que cada povo e cada cultura tem uma maneira tão diferente de lidar com um fato tão inerente à vida, que é a morte e a perda dos entes queridos?
Mauro, meu amigo italiano, do alto do seu eurocentrismo, ao ver aquelas cenas da matança dos animais disse-me: “Será que eu posso dizer que eles ainda tem um longo caminho a percorrer? Será? Eu só não sei aonde é que esse caminho os leva, onde é que podem chegar…”
E é no que estive pensando ultimamente. Afinal, onde é que se quer chegar?
Lembrei das carpideiras que tocam o choro nos enterros, dos povos que queimam os cadáveres e jogam as cinzas no rio ou no mar. Lembrei da loja de brasília que tem um serviço de buffet funeral e que serve iogurte com granola no cemitério. Lembrei das pessoas que tem que vestir, calçar, maquiar e escovar os defuntos para deixa-los mais bonitos. Como será a relação deles com a morte? Lembrei da velhinha japonesa que visitei e que guardava as cinzas do marido na sala de casa, ao lado do altar com budas, laranjas e uma caixinha de donuts, que ela comia escondido. Lembrei do cemitério dinamarquês que visitei, onde as pessoas vão passear com as crianças, com o cachorro e deitam sobre as tumbas centenárias para ler um livro, como se estivessem em um parque. Já que não consegui dormir, tive tempo para pensar em todas essas coisas.
E a pergunta, claro, tem tudo a ver com a minha vinda para cá. Fazer as perguntas me ajuda a encontrar respostas.
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