24/12/2007

Então é Natal

, a festa cristã.

Antes da festa cristã, esse ano houve a festa muçulmana, o Tabaski, uma das datas mais importantes para os muçulmanos.

Fui convidada para a casa do Iaguba, um dos meus mais caros colegas de trabalho, com quem aprendo muita coisa.

O Tabaski é uma festa em que os muçulmanos celebram o ato de Abraão que teve que sacrificar o filho unico. Eu nao sei muito bem a historia, é preciso buscar a versao oficial no Corão. Na Biblia também ha algo parecido.

Mas o sentido principal da data atualmente é o exercicio da solidariedade. As familias se reunem, comem juntos, e saudam os outros parentes, fazendo-lhes visitas nas casas.

Fomos gentilmente convidados por Iaguba - que é um bibliotecario muito eficiente e interessado aqui do trabalho - e vimos ai alguns parentes de sua familia que vieram visita-lo.

Foi bom para conhecer outro bairro de Bissau e para ver como vive uma familia guineense. A casa de Iaguba é bastante agradavel. Passamos o tempo todo na varanda, do lado de fora.

Foi uma ocasiao para visitar uma casa guineense, estar no seio de uma familia, o que é sempre interessante. Provei uma comida muito tipica dos fulas aqui (O Iaguba é dessa etnia). é um cereal cozido quase como um cuscuz, que se chama "fonho" (essa é a minha grafia para o som que ouvi. é mais leve do que cuscuz de semola e é muito gostoso.

No cardapio também estava o cordeiro que é morto nessas ocasioes, frango, salada e batata frita... Muita fartura e muita alegria nesse dia.

Choque cultural
O que foi interessante/pitoresco nesse dia é que um de seus sobrinhos veio visita-lo com a mulher e as duas filhas, pequenas. A mulher usa uma burca negra de cima a baixo, que cobre o rosto totalmente e também luvas pretas nas maos e meias nos pes. Nao vi um sequer pedaço da sua pele à mostra. Uma coisa bastante chocante, que ja tinha visto na rua aqui mas nunca convivido de tao perto.

Falando assim do jeito que estou escrevendo agora parece que fiquei paralisada, como se estivesse num freak show, mas não é isso. é que o choque cultural - quase o mesmo que tive com o tchur/funeral no inicio da minha estada aqui provocam milhoes de pensamentos e questionamentos sobre a nossa propria cultura.

Nesse caso, é como se a mulher não existisse, porque vem mas não fala com ninguém e nem eu sei se é possivel conversar com ela. Iaguba nos explicou que, mais do que uma das interpretaçoes do Islã, isso é na verdade um aspecto cultural que foi "importado" de alguns paises mais radicais e começou a ser adotado recentemente aqui na Guiné.

Junto com o casal, havia duas meninas, uma delas muito muito linda. Aisha, de 5 anos. Brinquei muito com ela. A outra, um bebe de 1 ano e pouco devia achar que eu era o demo, porque olhava para a minha cara e disparava a chorar. Talvez nunca tivesse visto uma pessoa tao branca e horrivel!

Não tirei foto com a menininha linda. porque não sabia qual a aceitaçao da familia nesse sentido. Imagina, se a mãe fica coberta, talvez a filha não possa aparecer em fotos. Mas a menina era linda, linda demais. Tem cinco aninhos e usava um veu cor de rosa, que não cobria o rosto ainda. Ao contrario, deixava bem evidentes as suas bochechas gostosissimas que apertei bastante, ao tentar conversar com ela.

Ala me perdoe por pensar nisso, mas fiquei com pena das meninas crescerem numa familia onde as mulheres tem que se esconder da cabeça aos pés. E por ironia do destino o casal so teve filhas mulheres.

Infelizmente, nao tenho fotos melhores, porque essa foi a unica: eu de olhos fechados ao lado da familia que me acolheu tao carinhosamente nessa data importante.



Ai podem ver a elegancia com que os muçulmanos tratam o dia do Tabaski. Aisatu, esposa dele, estava com um lindo lindo traje de bazan (tipo de tecido brilhoso e farfalhante) e bordado. Eu até experimentei um traje desses, que ela vende, mas ficou meio estranho, me deixando um tanto maior ainda do que eu ja sou. Mas aprendi enfim a amarrar o pano na cintura, sem me preocupar se ele tem que cair ou não. A dica é: abra as pernas na hora de amarrar, depois, vc esta livre leve e solta para andar, dançar e fazer o que quiser, sem medo do treco cair.

Fim de semana foi dia de ir ao mercado comprar presentes e, claro, muitos panos coloridos, que amarro agora na cintura com a maior destreza do mundo!



Um comentário:

Anônimo disse...

Flavia, feliz Natal e mta saude e protecao pra continuar suas maravilhosas aventuras no ano novo!! bjs, cecilia