20/12/2007

Vento

Tem dias que Bissau fica cheia de vento. Da janela do escritório, de onde vejo a cidade, posso enxergar a poeira voando, as árvores dançando e ouvir o barulho do vento assobiando ou batendo com rajadas fortes, como quem quisesse invadir a minha sala, a minha alma, tornar rebeldes os meus cabelos que estão a cada dia mais compridos. Como já se não me bastasse toda a rebeldia e toda a cabeleira.

As vezes, o vento é forte demais, transforma o azul do céu em uma espécie de nuvem densa de poeira vermelha. As árvores parecem que vão ser arrancadas do chão, se não fossem tão firmes e com troncos tão fortes. Essa terra tem raízes, meu Deus, como tem. Raízes que foram destruídas com tantas guerras e abandono. Mas que ora são tão arraigadas, que qualquer mudança é tão difícil, tão lenta, tão gradual.

Mas a poeira não tem raízes. Levanta do chão, levanta a minha saia branca, e me suja toda. Dizem que vem do deserto, a poeira. É do deserto que atravessei? Ainda estou atravessando. E deixo a poeira me atravessar, passar direto. Às vezes ela fica impregnada, mas nada que um banho de cuia não cure.

Prefiro poeira à lama. Isso parece mais frase de aula de português. Melhor a poeira do que afundar na lama, que medo eu tenho da sua densidade e umidade. O cerrado me ensinou a viver na seca e a achar que a vermelhidão do chão é normal. So que às vezes eu tenho sede. Mas em vez de lama, desejo um rio inteiro para me banhar.

Achei que Bissau era cidade de praia antes de vir. Mas aqui não há mar. Passa um rio ali ao lado. Do outro lado do escritório consigo vê-lo. Desejo de vista panorâmica! Ou de correr de um lado a outro do corredor para saber até onde é possível a minha vista alcançar.

Bissau não tem mar, não tem deserto, tem buraco. E a cidade esta toda passando por um recapeamento nos últimos dias do ano. Parece assim que sobrou um dinheiro e o governo não sabe o que fazer: que tapem os buracos! Que comam brioches.

Aos poucos estou entendendo e decifrando essa cidade, que é tão labirinto. E descobri que o problema de falta de energia não tem mais conserto, porque há quem ganhe dinheiro com isso. Tem a ver com a corrupção, com a safadeza. Gambiarras sem limites.

Estou buscando a luz, quando posso. Outro fim de semana descobri um lugar que me faz sentir como em Brasília: vejo o céu de um lado a outro, o horizonte mudando de cor no por do sol. Mas o lugar é de mentira, um palácio com piscina e um bocado de glamour. Faz-nos sentir em outro mundo. E por que será que preciso disso de vez em quando? Até quando se pode fechar os olhos para a dureza do mundo? Levantar a poeira para cobri-la com sua nuvem espessa.

Adoro a metáfora da amiga Lu que diz que a tristeza do mundo é a gotinha de suor do exercício e que por isso esta fora de mim. Dá licença de te citar, Lu? Você esta certíssima. Continua com as tuas metáforas, desde que elas te façam bem. Quando são bem usadas, fazem até um bem maior.

Nesses dias ansiosos de fim de ano, quem faz me sentir mais calma e transforma vento em brisa é a musica, é a Nina Simone, que ouço à exaustão e graças ao meu amigo PH.

E há um vídeo dela que quero incluir aqui. Dizendo que I’ve got Life e isso é o mais importante. Esse video é esplendido, seja pelos maravilhosos brincos dançantes, pela levada da pandeirola, pelo toque energico do piano da Nina Simone ou pela letra muito maravilhosa dessa musica que eu canto em voz alta no meu 'bureau' - é assim que chamo meu escritorio nesse lugar tao francofono.

Sempre me lembro do meu tio dizer que o importante é que eu esteja me sentindo bem, apesar de todas as dificuldades que me circundam. E posso dizer que isso é verdade. Estou me sentindo bem. Leve como a poeira. Deixando-me levar para o vento.

Enquanto não corto os meus cabelos, eles ainda vão dançar muito pra lá e pra cá.

Deus Obrigadu é como se diz Graças a Deus em Kriolo.

E o video:

2 comentários:

Anônimo disse...

Oi, eu trouxe um disco da Nina Simone que adoro...outro dia ouvi...mas deu muita saudade e peguei um Paulinho da Viola pra me trazer de volta ao Brasil...o importante é se sentir bem...

Beijos

Lilian

Unknown disse...

Eu podia prometer te escrever mais metáforas, mas lembro que uma das promessas 2006-2007 foi que as estrelinhas almoçaríamos juntas pelo menos uma vez ao mês e agora você está aí, Gi em Sampa, Fabi ainda no Rio e não vejo Helena e Mari há meses. Não há promessas - mas e-mails que chegarão. Essa é uma afirmativa. Feliz ano novo, estrela-mor. You're always on my mind.