11/12/2007

Você tem noção?

São coisas pequenas do meu cotidiano aqui, mas acho que ninguém ai tem muita noçao do que é viver num pais como a Guiné Bissau, porque a realidade no Brasil (ou na França, ou no Japão, ou no Marrocos, ou sei la onde) é tao diferente.

Algumas pequenas grandes coisas

Aqui Visa Electron e cartão de crédito sao coisas que não existem. Nem sonham em existir. Cheque até se usa, mas é muito pouco. é tudo mesmo na base do cash, dinheiro vivo. Outro dia tive que levar o maior bolo de notas que ja carreguei na minha vida para pagar uma passagem aérea no valor de 580 mil francos (500 mil eram em nota de 5 mil...). Ja tive que aprender até a ter técnica de contar grandes bolos de dinheiro. Se quiser, um dia eu te ensino.

Nos mercados (mercadinhos pequenos), os produtos são em pouca quantidade e estão SEMPRE empoeirados. Eu realmente não sei como o Extra consegue manter aquelas pilhas enormes de produtos, e todos limpinhos, sempre. Alguém deve suar muito para fazer isso.

Das tres companhias de celular na Guiné Bissau, as duas principais nao se comunicam. Houve uma rixa na hora das empresas abrirem e como resultado, os serviços nao sao compativeis. Chique na Guiné Bissau é ter pelo menos dois celulares. (e nao so chique, mas o unico jeito de se comunicar com as pessoas). Eu, como detesto andar com dois telefones, fico trocando de chip a todo minuto. Quando preciso falar com jornalistas, que têm numeros da Guinetel e da Areeba, acho esse sistema SUUUUPER pratico.

A Radio Difusao Nacional (similar à Radiobras no Brasil), nao consegue alcançar o pais inteiro (que tem 35 mil km2). Falta luz na Radio direto, porque nao ha dinheiro para gasolina, e por isso a transmissao para no meio do dia, do nada. Os jornalistas usam aqueles gravadores com fita cassette. A empresa também tem divida com a companhia de telefone. E por isso, nao ha telefone na radio (para os ouvintes, para falar com os jornalistas e enviar comunicados de imprensa, para os radialistas fazerem entrevistas ao vivo por radio, e por ai vai). Não sei como conseguem trabalhar nessas condiçoes. Alguém precisa fazer alguma coisa!!

Esta para abrir a primeira locadora de DVD em Bissau.

Meu vizinho de cima é médico, acaba de ser eleito Presidente da Ordem dos Médicos de Guiné Bissau. (é um querido! a familia dele é muito querida e são todos muito acolhedores!). No mesmo apartamento em que eu moro sozinha, ele mora com a familia inteira, com a mulher e dois filhos. A luz foi cortada, nem sempre tem dinheiro para comprar gas. Passam a noite inteira no escuro. O cara é, eu repito, médico. Tem status social. Mas mora num apartamento sem luz e agua. Sabe-se la desde quando nao recebe o salario. A mulher dele é enfermeira. Vivo vendo gente subir e descer com toneis e toneis de agua e acho que o racionamento na casa deles deve ser absurdo, porque se, para mim, tomando banho com garrafoes de 5 litros d'agua, a reserva nao dura uma semana. Para uma familia de quatro pessoas, imagine o trabalho que deve dar. Triste mesmo ver pessoas tão boas e tão lindas serem obrigadas a viver nessa situação.

Descobri que tomar banho quente so vale a pena quando a agua cai constantemente do chuveiro. Como esta friozinho aqui, resolvi esquentar a agua de manha (no fogao) antes de tomar banho. é bem pior do que encarar a agua fria. Porque depois que a agua toda da cuia cai, vem o ventinho frio e haja baldinho e cuia de agua morna para tomar um bom banho quente, de manha.

Agora, quando voce estiver ai, esquentando suas comidinhas no microondas, assistindo a um DVD em casa - onde nao falta luz -, tomando banho no chuveiro eletrico e deixando a agua quente cair durante meia hora no cangote, ou pedindo uma pizza em casa, indo ao supermercado comprar lasanha congelada e quaisquer outros produtos limpinhos e lustrosos em grandes pilhas, comece a agradecer e a rezar pelo conforto do capitalismo. E peça a bençao pelas almas das pessoas que trabalham duro, que acordam cedo e se arrumam num quartinho à luz de velas, pelas crianças que aprendem a carregar balde d'agua na cabeça desde os 4 anos para garantir que voce tenha todo esse conforto. E nao esqueça de colocar suas camisetas do Che, que foram passadas a ferro pela diarista Dona Dalva, com a energia da hidreletrica que inundou a vila onde a mesma Dona Dalva morava e por isso teve que se mudar para a cidade grande, viver num quartinho minusculo alugado enquanto espera a indenizaçao do governo, que provavelmente nunca vai paga-la por ter desalojado ela e a familia.

Esse mundo é mesmo muito louco. Desculpem, a historia virou para o lado da politica, estou quase agredindo voce leitor. Mas é que as coisas me fazem pensar e vao para esse lado. A desigualdade é uma coisa que a gente não pode deixar de enxergar nunca e tentar se colocar no outro lado de vez em quando.

E olha que eu aqui vivo uma vida de privilegios, no centro da cidade, em um apartamento confortavel, em um trabalho razoavel, com direito a divertimento no fim de semana, com 500 mil em notas de 5 mil para passar férias fora daqui. E ainda estou reclamando, sei que nao devia. Estou escrevendo isso porque tive inumeros privilegios na vida (o de aprender a ler e escrever ja sao coisa que muita gente nao tem!). Reclamando por reclamar em um blog, online, com acesso a internet de alta velocidade. Que menina mimada!

Se ja sofria da desigualdade no Brasil, agora eu me sinto mais ainda na beira do abismo social. Obviamente na classe privilegiada. E, apesar disso, acho dificil carregar esse peso nas costas. Nem deveria ser um peso. Eu nao deveria me importar com isso, mas como? O que fazer? Quantas pessoas estao na mesma situaçao que eu? Quantas pessoas estao do outro lado?

Socorro!

5 comentários:

Anônimo disse...

Menina,

Senti tanto sentimento nesse relato, um misto de indignação com consciência pelo que viveu...você é iluminada menina, aproveite! Sorte dos guinenses que a têm tão perto agora! Saudades mil

Lilian

Freddy Charlson disse...

flavitias,

entendo boa parte de teu desabafo e tuas histórias. vivi muito disso na infância, no interior do maranhão. desde usar lata de goiabada para comer mexido de abacate até lutar por um cantinho para assistir TV no vizinho de duas ruas depois. aproveite cada momento, querida, e reflita ainda mais sobre a vossa condição social. toda a luta valerá. conte-me mais.

freddy charlson

Anita Mendes disse...

Menina Cheuveux, estamos lutando de dentro do dragao, tentando fazer a diferenca nas pequenas coisas que nos trazem prazer de sermos seres pulsantes. Egocentricos que somos ,poucos deixam a natureza divina de sermos outro transparecer .Vivo nos EUA por consequencias da vida que talvez um dia ,quem sabe poderei te explicar... e apesar de estar numa situacao diferente da sua (onde as pessoas tem ascesso a tudo e todos os tipos de privilegios )entendo muito bem o que vc esta sentindo.E como se eu fizesse parte do outro lado da moeda. Aqui as pessoas nao dao o minimo valor ao que tem ,a banalizacao do superfluo se tornou tao comum que tranformou essa sociedade,ao meu ver, em seres indignos de vida em qualquer estado absoluto(generalizando e claro!). Creio que a experiencia de estar fora do habit natural nos transforma, nos ilumina . Consiguimos enxergar de uma certa forma, mesmo que destorcida,a essencia de sermos humanos.Talvez por isso, me identifico com a sua historia.Escrever nos purifica ,nos tranforma em seres perfeitos que jamais existirao.
Anita Mendes.

Anita Mendes disse...

errata:Cheveux e transforma

Mónica Lice disse...

Oi Flávia,

Ouvi que o BAO instalou nos últimos dias caixas multibanco em Bissau... É o progresso a chegar!;-)

Beijinhos.